Cultura de Paz e Direito à Vida

Por

por Hamilton Faria

A Cultura de Paz é entendida por parcela significativa da sociedade como passividade, fragilidade diante do mais forte e ausência de conflitos.

A Cultura de Paz é fruto da não violência ativa, é sintoma de força; a violência é sintoma de fragilidade da sociedade e dos seus protagonistas.

A Cultura de Paz não esconde, mostra o conflito, busca resolvê-lo com resistência ativa, diálogo, amorosidade, mediação, escutas, interculturalidades e valorização da diversidade cultural; convivência pacífica entre os seres; justiça restaurativa, comunicação não violenta, consumo responsável, simplicidade voluntária, participação pacífica nos processos socioculturais. E respeito à vida em todas as suas manifestações.

É um novo paradigma para a transformação da sociedade e dos valores que a constituem.

A paz que está em nosso imaginário parte da noção da Pax Romana, que incorporava territórios com violência e depois impunha regras de controle. Há que desconstruir este conceito. Quero partir de três máximas para situarmos a cultura de paz:

A primeira é:

ghandi mudança

Vou contar uma estória que ilustra bem esta máxima: uma mãe indiana pede para Bapu (Gandhi) aconselhar o seu filho a não comer açúcar porque estava ficando doente. Bapu diz para a mãe que retornasse no prazo de um mês. Ele aconselha:

“Menino, não coma mais açúcar”. O menino diz que vai parar de comer açúcar ao ouvir o Mahatma.

A mãe pergunta: -“porque Bapu pediu um mês e não falou logo em seguida?”

Gandhi responde: “É que naquela época eu ainda comia açúcar”.

O que vemos desde sempre – pessoas pregando aquilo que não são. As conclusões a partir desta máxima falam por si.

A segunda ainda de Ghandi

“Tudo que vive é o teu próximo”.

Aí o nosso diálogo se amplia para a comunidade dos seres vivos. Estamos hoje numa comunidade maior – a comunidade da vida -, onde as pessoas, a natureza, os animais, as florestas também devem ter direitos.

Veja-se a Ley de Derechos de la Naturaleza, do Equador, e a Ley de Derechos de la Madre Tierra, da Bolívia, – que desenvolvem uma filosofia de proteção dos povos originários e respeito às formas de vida e ritmos da natureza.

Estas leis garantem à natureza o direito à vida, o direito de ter ciclos e processos vitais livres da alteração humana, o direito de não ter estruturas celulares alteradas geneticamente. Buscam garantir o direito de seus países não serem degradados por megaprojetos de desenvolvimento que afetem o equilíbrio de ecossistemas e das populações locais. São legislações que revolucionam o mundo do direito, – que dão à natureza os direitos básicos dos humanos.

A natureza passa a ser sujeito desses direitos. Estas políticas provocam estremecimento nas leis estabelecidas, centradas em princípios patrimonialistas que regulam as relações entre os seres humanos e suas propriedades. Elas estabelecem no mundo da cultura a noção de bem comum.

Esta máxima amplia a noção do “outro” para a comunidade dos seres vivos e mostra os limites de uma civilização com centralidade nos seres humanos. O planeta tem outros habitantes. Esta é a boa-nova vital para a metamorfose contemporânea.

Está posto que precisassem criar uma nova ética; esta terá como força espiritual a reverência pela vida.

A terceira máxima é aquela de André Breton no Manifesto Surrealista:

“Será preciso começar por retirar da guerra todos os seus títulos de nobreza”.

Não há nenhuma virtude na guerra e ela precisa ser compreendida como manifestação de uma pré-história civilizatória e método de domínio, não de emancipação.

Mudar nome de ruas que lembram ícones da violência; refundar o vocabulário e metáforas que enaltecem a violência “justa” (sic) ou injusta; construir valores positivos na comunicação presencial e virtual; eleger o diálogo e a resistência ativa, a construção de outros paradigmas culturais que contribuam para civilizar a civilização e criar novas formas de vida em sociedade.

A violência não é direito, é transgressão de um direito (Jean Marie Mueller).

Satyagraha Foundation » Blog Archive » Nonviolence in Education www.satyagrahafoundation.org Photo, Jean-Marie Muller; courtesy histoiresordinaires.fr

Satyagraha Foundation » Blog Archive » Nonviolence in Education
www.satyagrahafoundation.org
Photo, Jean-Marie Muller; courtesy histoiresordinaires.fr

Assim, pode-se criar o Ministério da Cultura de Paz e dos Direitos Humanos e linhas de trabalho transversais que eduquem a defesa e a segurança para os novos tempos.

A Cultura de Paz revela novas formas de ver o mundo, escutar, dialogar, viver, sentir, compartilhar, com não violência. É a verdadeira alma do reencantamento do mundo.

Como fazer cultura de paz? Como indica AJ Muste, pacifista, líder dos direitos civis nos Estados Unidos dos anos 60.

Paz_Gandhi

Assim, a cultura de paz vem desempenhando duas funções:

1) tornar visíveis as violências diretas, estrutural e simbólica/cultural no cotidiano, na grande vida, no imaginário;

2) estimular a criatividade para criar e promover novas formas de convivência, outros conceitos, atividades, relações, novos estilos do bem viver.

Assim, alguns dos grandes desafios de hoje são: construir a paz nos territórios, fortalecer valores na localidade e transformá-los em políticas públicas.

Como diz Maria Zambrano, escritora e filósofa espanhola (1908-1996): “A paz é muito mais que assumir uma postura, é uma autêntica revolução, um modo de viver, um modo de habitar o planeta, um modo de ser pessoa”.

Está em constituição um novo paradigma civilizatório, central para acrescentar humanidades à vida do planeta; envolve valores, atitudes, ações e políticas públicas.

Quero terminar com um conto do poeta Kurt Kauter, incluído no magnífico texto da professora Lia Diskin: Vamos Ubuntar? Um convite para cultivar a paz, UNESCO, Fundação Palas Athena, 2008.

Vamos Ubuntar - Um convite para a Paz

Nada de Nada

Sabes me dizer quanto pesa um floco de neve? perguntou um pardal a um pombo silvestre.

Nada de nada – foi a resposta.

Nesse caso vou lhe contar uma história maravilhosa – disse o pardal.

Eu estava sentado no ramo de um pinheiro quando começou a nevar.

Não era nevasca pesada ou furiosa. Nevava como em um sonho: sem ruído nem violência. Já que não tinha nada melhor a fazer, pus-me a contar os flocos de neve que se acumulavam nos galhos e agulhas do meu ramo. Contei exatamente 3.741.952.

Quando o floco número 3.741.953 pousou sobre o ramo – nada de nada como você diz – o ramo se quebrou.

Dito isso, o pardal partiu em voo.

A pomba, uma autoridade no assunto desde Noé, pensou um pouco na história e finalmente refletiu:

Talvez esteja faltando uma única voz para trazer paz ao mundo.

Hamilton Faria é poeta, coordenador de cultura do Instituto Pólis, professor universitário e padrinho do CONPAZ/PR.

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