Sonhar é preciso II – perspectivas para 2015

Por

Por Paulo Tharcicio Motta Vieira

O cenário mais provável para a economia global, baseada na leitura e na oitiva dos ideários da economia de mercado, aponta algumas tendências já delineadas no final de 2014, que de certa forma nos trazem preocupações e alívios, pois a perspectiva concreta é que se estabeleça o início da recuperação de setores econômicos essenciais para o Brasil, embora essa tendência deva se firmar e ser percebida mais fortemente em 2016.

O EUA, começou a sair da crise iniciada em 2008 e que se alastrou para todo o mundo, continuando a recuperação da economia para o nível que os economistas consideram a média histórica, na faixa de 2,5% ao ano, com a consequente redução do desemprego, a inflação paulatinamente convergindo para a meta de longo prazo e uma elevação moderada da taxa de juros básica da economia. Isso, deverá fazer o capital especulativo migrar para a economia americana, o que, certamente, vai criar dificuldades ainda maiores para o resto do mundo, afetando a liquidez do sistema financeiro global, notadamente para os países dependentes dos dólares especulativos para o fechamento das respectivas contas externas.

O maior risco com a movimentação da economia norte-americana é a antecipação e intensificação da elevação da taxa básica de juros, causando forte fuga de capitais das economias em desenvolvimento, a reprecificação de ativos globais e aceleramento da valorização do dólar americano frente às demais moedas, notadamente as não conversíveis.

A Europa segue próxima da estagnação, com crescimentos desiguais entre os países mais desenvolvidos, principalmente, Alemanha e França crescendo abaixo da média histórica, lenta queda do desemprego e inflação muito baixa – o que abre espaço para política monetária expansionista em contraposição à política monetária restritiva nos EUA, contribuindo para manutenção da liquidez global. Os países que tem a economia mais fragilizada e dependente do comércio exterior da Zona do Euro, devem seguir em penúria, com mais ajustes e altos níveis de desemprego.

A boa notícia é que a China – talvez o maior parceiro comercial brasileiro da atualidade – deverá continuar no ritmo do planejamento de longo prazo do governo, algo em torno de 7,5% ao ano, mas com uma guinada estratégica no rumo do fortalecimento do mercado consumidor interno, o que pode recuperar em parte a exportação de commodities agrícolas brasileiras, em detrimento dos investimentos em infraestrutura, o que pode afetar o setor exportador de primários do Brasil, notadamente minério de ferro. Mas se de um lado é bom, merece constante observação, uma vez que de outro podemos ter uma queda acentuada da demanda por commodities causada pelo enfraquecimento da economia chinesa para patamares abaixo do planejado e pela continuidade da recessão na Europa.

Do Japão, o pouco que se sabe é que continuará baixo o crescimento devido à elevação de impostos sobre o valor agregado, embora o banco central japonês continue com a política de afrouxamento monetário, o que deverá ser bom, pois também contrapõe-se à elevação das taxas de juros americanas, auxiliando na obtenção dos dólares pelos demais países, e promovendo certa liquidez global.

Enquanto isso no Brasil, a oposição deverá continuar na disputa do 3° turno da eleição de 2014, solapando as intenções do Governo Federal, mas penalizando a população.

Pelos primeiros sinais, o 2° mandato de Dilma deverá implementar uma agenda positiva de ajustes necessários à retomada da confiança dos agentes do mercado e do crescimento com sustentabilidade. Entendendo-se que o crescimento envolve somente a parcela privilegiada da população brasileira, acredita-se que o Governo Dilma deva buscar o desenvolvimento social abrangente, com uma agenda que promova as reformas estruturais que os sucessivos governos devem a população brasileira desde 64, quando o plano das reformas de base anunciadas por Jango, foi o estopim do golpe militar que nos fez amargar duas décadas de ditadura.

O Professor Celso Furtado, no livro “O Mito do Desenvolvimento Econômico”, publicado em 1974, já apontava as falhas do processo de crescimento econômico periférico, herança do Brasil Colônia, cujas características fundamentais se mantém até hoje.

Sob a ditadura do superávit primário, segundo os economistas lidos e ouvidos, o ajuste fiscal é essencial para retomada da confiança dos agentes econômicos, para manutenção do grau de investimentos e para retomada dos investimentos necessários à elevação da oferta e à redução do custo Brasil. Parece-me falacioso, porque o superávit serve para garantir o pagamento dos juros estratosféricos referentes a dívida pública, o que grosso modo só atende aos interesse dos credores (banqueiros e rentistas), que mesmo com Lula e Dilma continuaram centralizando a riqueza nacional nas mãos da parcela da elite brasileira, detentora dos títulos da dívida pública.

A manutenção do fluxo de investimentos estrangeiros diretos e em carteira deve financiar o déficit nas “transações correntes”, déficit que deve ser reduzido lentamente, também com a desvalorização cambial do real, já em curso.

O modelo baseado em consumo, estruturação de um mercado consumidor interno, com a inclusão das ditas classes C, D e E, ainda parece sustentável, porém com o crescimento em queda e o consequente arrefecimento do mercado de trabalho e a diminuição da oferta de crédito. Entretanto, vale frisar que as condições à concessão de crédito continuam favoráveis (a inadimplência nos bancos controlada e existência de margem para endividamento responsável das famílias), o que deve permitir que continue expandindo, só que com taxas de juros mais altas e volume mais moderado.

A questão do crédito é de se analisar em separado, uma vez que mesmo com os volumes atuais, parecem tímidos com relação a necessidade de crédito produtivo, senão vejamos: o endividamento do crédito agrícola, centralizado em 70% no Banco do Brasil – algo em torno de R$ 70 a R$ 80 Bilhões -, não chega ao valor disponível de uma safra, para exemplificar: no ano safra 2013/2014 foram disponibilizados em torno de R$ 120 Bilhões para a agricultura patronal e R$ 20 Bilhões para a agricultura familiar. Acredito que poder-se-ia dobrar esse valor sem qualquer risco, desde que se universalizasse o acesso ao crédito agrícola, notadamente para os pequenos e médios produtores que dependem do custeio para efetivar a sua cultura. Em pesquisa realizada em 2008 junto aos produtores de holerícolas de Colombo, RM de Curitiba, concluiu-se que existem muitos entraves burocráticos a concessão do crédito agrícola, notadamente na modalidade investimento, que por ser de maior prazo de reembolso tendem a não ser concedidos tão facilmente.

A inflação deve se manter no limite da meta, pressionada principalmente pelo realinhamento de preços internos (segurados durante a eleição presidencial de 2014) e externos, com a desvalorização do real e com os reajustes dos preços administrados. A administração em doses homeopáticas dos ajustes dos preços administrados pelo Governo Federal, no curto prazo, permitirá que a inflação entre em convergência para o patamar proposto pela meta, que deve ser atingida a partir de 2016, mantendo-se acima da meta de 4,5% ao longo de 2015.

Caberá ao Governo Dilma compreender a mensagem passada pelos milhões de manifestantes que foram ás ruas em jun/2014 buscando exercer a sua cidadania e aplicar os ajustes internos para conter a deterioração dos fundamentos econômicos e recuperar a confiança do setor privado, mas com especial atenção ás reivindicações populares, notadamente com relação á modernização do país e ao fortalecimento da recente experiência democrática brasileira.

A palavra de ordem do 2° mandato de Dilma tem que ser “Governar com, pelo e para a maioria do povo brasileiro”, com o fortalecimento dos programas sociais, notadamente aqueles que auxiliam na diminuição da concentração de renda e promovem a conquista da cidadania, dentre os quais o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, Programas Educacionais emancipadores e o fortalecimento cada vez maior da agricultura familiar, responsável por mais de 70% dos alimentos que chegam aos lares dos brasileiros.

Eu acredito!

Com informações da Gazeta do Povo, Portal G1, Blog Marxismo 21 e do Blog Milton Alves – Milton com Política

Paulo Tharcicio Motta Vieira é o presidente da Diretoria-Executiva da FUEP – Federação Umbandista do Estado do Paraná.

Compartilhar