Umbanda 110 anos, muito a comemorar e muito mais ainda por fazer…

Vive-se um tempo em que a intolerância e a discriminação, transformaram-se em perseguição escancarada ás religiões de matrizes africanas. São patrocinadas por um fanatismo fundamentalista das igrejas evangélicas neopentecostais televisivas sem precedentes.

Dessa forma, é importante resgatar a memória da Umbanda, religião nascida em terras brasileiras, com fortes influências de matriz africana, que hoje, dia 15 de novembro, completa 110 anos. A data foi oficializada em 2012, através do Decreto Lei nº 12.644, como “Dia da Umbanda” em todo o país.

Fundada em 1908, no Rio de Janeiro, pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas (acima o ponto riscado), incorporado no Médium Zélio Fernandino de Moraes, a Umbanda traz em si as características da resistência, da caridade e da frontal oposição a qualquer forma de preconceito e discriminação. Todas e todos são bem vindos nos Terreiros de Umbanda, que grosso modo, reproduzem as características fundantes do nosso Brasil mestiço, mesclando crenças do catolicismo e do espiritismo e de religiões de origens africanas e indígenas. A orientação é: “Com os que sabem mais, aprenderemos. Aos que sabem menos, ensinaremos”, mas a ninguém viraremos as costas.

Estas características que a marcam profundamente desde a sua fundação, não se enfraqueceram, nem com o tempo e tampouco pela perseguição sistemática, ao contrário, aliadas a uma constante adaptação à contemporaneidade, se mostram até os nossos dias fortalecidas e determinantes para a sua manutenção no espectro religioso brasileiro.

De fato, ao analisarmos a fundação da Umbanda, vemos que aconteceu, ainda que parcialmente, o resgate da enorme dívida histórico-cultural, tanto com os negros que para cá vieram escravizados quanto com os índios que aqui habitavam antes da chegada dos portugueses.

Assim, diferentemente da história de outras denominações religiosas, no caso Umbandista, se dá privilégios para a manifestação das Entidades mais humildes, mas nem por isso desprovidas de saber, que se identificam como Caboclos (Índios) e Pretos-velhos (Negros/Negras escravizados).

E o que fizeram então essas Entidades de Pretos-velhos e Caboclos para merecer essa distinção? Resistiram ao preconceito racial disfarçado de discurso religioso criando uma nova religião, nascida da cultura popular onde ainda hoje impera a tradição oral; não há livros de revelações oficiais; códigos canônicos; nem versículos que sirvam de base para relações de poder e obediência cega.

As diferenças de interpretação de um ou outro aspecto desta fé não conduzem à expulsão, ao silêncio obsequioso ou à condenação. Ao contrário, a diversidade ritualística e de culto é considerada a sua maior riqueza. E assim, reconhece que o sagrado pode se manifestar nas mais diversas expressões, ritos e práticas litúrgicas, sendo um dos caminhos para a “morada do Pai Maior”.

Na Umbanda não há catedrais colossais, nem mega-templos, pois a fé se manifesta na individualidade de cada Médium ou simpatizante, na sua intimidade.

Então, aos 110 anos, a Umbanda e os Umbandistas são chamados a novamente resistir como no seu início, contra a violência cotidiana de certas denominações religiosas que se reivindicam o monopólio do sagrado, que não compreendem que o sagrado não está apenas nas religiões etnocêntricas, mas também, na força dos Caboclos e Preto-velhos que romperam preconceitos estabelecendo um novo modo de compreensão do sagrado e novos sentidos simbólicos.

Essa força e essa fé agora se tornam novamente imprescindíveis, é a missão de cada um de nós e será determinante para a Umbanda que deixaremos para as futuras gerações! Axé!

Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, onde a Umbanda começou…

Psicólogo do pobre

Se o dia 15 de novembro entrou para a história como o Dia Nacional da Umbanda, o 16 de novembro ficou marcado pela fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. A casa situada no número 30 da rua Floriano Peixoto, em Neves, São Gonçalo, já nem existe mais. Foi demolida em 2011. Hoje, funciona em Cachoeiras de Macacu, a 97 km da capital, e, pelo menos uma vez por mês, atende uma média de 120 pessoas.

“A Umbanda pratica a caridade e não cobra um centavo de ninguém. O Preto- velho é o psicólogo do pobre”, afirma Fátima Damas, presidente da Congregação Espírita Umbandista do Brasil.

No Brasil, a liberdade de credo é assegurada desde a primeira Constituição da República, de 1891. Mesmo assim, a intolerância religiosa nunca deixou de existir. O Código Penal de 1890, vigente no ano em que a Umbanda foi fundada, criminalizava a prática dos cultos afros.

Por essa razão, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade foi alvo constante de batidas policiais. “Meu avô enfrentou preconceito até mesmo dentro de casa. Sua família era predominantemente católica”, relata a neta, Lygia Maria Cunha.

Zélio de Moraes dirigiu a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade até 1946, quando passou o comando para as filhas Zélia e Zilméa, ambas já falecidas. Quando ele morreu, em 3 de outubro de 1975, Lygia, sua neta, tinha 38 anos, e Leonardo, seu bisneto, 11.

Atual dirigente espiritual da Piedade, como a família se refere à Tenda Espírita, Lygia conta que seu avô não sabia nadar e até de piscina tinha medo. No entanto, quando incorporava a entidade Orixá Malet, era capaz de entrar no mar e arriscar umas braçadas por entre ondas fortíssimas.

“Da areia, acompanhávamos tudo, apavorados. Já imaginou se a entidade resolvesse deixá-lo antes de ele estar são e salvo na praia? Felizmente, isso nunca aconteceu”, relata.

Adeptos

O atual presidente da Piedade, Leonardo Cunha, explica que o nome umbanda só veio muito depois de sua fundação. Originalmente, o nome do culto era alahbanda – em homenagem à entidade Orixá Malet, que fora muçulmano em sua encarnação anterior. De origem árabe, Alá ou Alah significa Deus. Já “banda”, palavra coloquial do idioma português do século 15, é sinônimo de lado. “Umbanda pode ser entendida como Ao lado de Deus ou Com Deus ao lado”, explica.

Segundo dados do Censo de 2010, o número de Umbandistas hoje no Brasil, 110 anos depois de sua fundação, chega a 432 mil. Uma queda de 20% em relação ao Censo de 1991.

Para Fátima Damas, da Congregação Espírita Umbandista do Brasil, esses números não correspondem à realidade. “Muitos Umbandistas não admitem publicamente que são Umbandistas. Por medo ou vergonha, preferem dizer que são católicos”, justifica.

Os casos de intolerância religiosa, segundo a Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI), aumentaram, só no Rio de Janeiro, 56% em relação ao primeiro trimestre de 2017. São 25 denúncias entre janeiro e abril contra 16 no mesmo período do ano passado.

Em alguns casos, vândalos depredam os terreiros, destroem imagens e fazem pichações: “Fora macumbeiros!”, “Não queremos macumba aqui!” e “Só Jesus expulsa demônio das pessoas!”. Em outros, pais, mães, filhos e filhas de santo são impedidos de vestir branco, usar guias e até de entoar cânticos.

Muita religião para pouco devoto

Dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos (MDH), revelam que os ataques a terreiros de umbanda e candomblé, entre outras, não estão restritos ao Rio. Em 2011, o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) atendeu 15 casos. Em 2015, foram 556. Ano passado, saltou para 759.

“Há uma teologia que se dedica a ganhar territórios ‘para Cristo’ e a enfrentar ‘inimigos’. Alguns identificam esses inimigos entre os praticantes de religiões com elementos espíritas e entendem a metáfora de ‘guerra espiritual’ no sentido literal da palavra”, analisa Giumbelli, da UFRGS.

Para o sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo (USP), a intolerância religiosa nasce do preconceito racial e agrega que “há muita religião para pouco devoto. Por essas e outras, algumas igrejas neopentecostais chegam a impor metas de conversão de umbandistas aos seus pastores”.

Em quase 110 anos de fundação, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade sofreu um único caso de vandalismo. Foi nos anos 1980 quando um invasor, durante um surto psicótico, teria quebrado alguns santos e ateado fogo no terreiro. As chamas não se alastraram.

Para os dias 15 e 16 de novembro, Leonardo avisa que não vai ter festa. No máximo, bolo com champanhe. “Na Umbanda, espírito não desce para dançar, desce para trabalhar. Nossa vida só tem sentido quando nos colocamos à disposição de Deus para servir ao próximo”, afirma.

Conheça mais sobre a história da Umbanda acessando:
Website da TENSP
https://www.tensp.org/

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